quarta-feira, 18 de abril de 2018

ARTIGO - Desamparo (AGA)


DESAMPARO
Alana Girão de Alencar*




Todos os dias, dou por mim a acreditar que a arte transmite um saber que se antecipa, como dizia Lacan, e assim, rendo-me inevitavelmente à poesia, a qual parece denunciar de forma escancarada a insensatez que estamos assistindo, vivendo e sofrendo na política do nosso País.

Alguma coisa está fora da ordem”1 e, indiscutivelmente, a nossa “piscina está cheia de ratos”2. E, lamento, do que vejo: uma histeria desenfreada a apontar discursos perfurantes, como se houvesse a possibilidade de instaurar a culpa do caos na própria ausência, projetando soluções partidárias como se a estrutura perversa obedecesse ao regime democrático. Sim, Cazuza, nos resta “pedir piedade... pois há um incêndio sob a chuva rala, somos iguais em desgraça”3.

Sigo lendo e relendo matérias críticas, soterradas de desabafos, sobre políticos, ministros, juízes, denúncias, operações, golpes, injustiças e tudo o quanto   importa... E, de maneira não menos surpreendente, sempre me deparo com a conclusão lógica de ficar cara a cara com a proporção desmedida do nosso desamparo.

Rasga-se a Constituição, burlam-se deveres, abusa-se de direitos, corrompe-se a esperança. Nosso circo de miséria, agora, dilata a olhos nus, nos acorrenta...  Põe-nos aos sobressaltos de duvidar do futuro. Raul  Seixas   havia   alertado   que sempre houve ladrões, maquiavélicos e safados”4. Só não previu por quanto    tempo   prolongar-se-ia  esse   “hoje em dia” em que “ no  mesmo  ser direito que traidor. Tudo é igual, nada é melhor”5.

Num desses textos, como de espanto, li que “Marielle é um cadáver fabricado”6, e de impulso indaguei sobre as armadilhas construídas pelo arcabouço das palavras. Atirar fábulas em histórias reais, sofridas, de minorias que gritam queixas de uma sociedade adoecida, me parece despencar de qualquer bom-senso rumo ao desrespeito pungente.

Marielle, antes de ser cadáver, era gente, voz... E, ao passo que os passos seguem, vozes se calam, medos florescem, cordeiros endiabrados assumem o controle anárquico. Tudo às claras, sem vergonha na cara, sem pudor... Sádicos gozam como se houvesse triunfo. Receio ter chegado ao tempo em que a migalha tida   como   luxo   serve   de  teia ao compartilhamento da dor dos humilhados.

Não é à toa que imagens de Oscar Maroni exibindo sua natureza cruel voltam a macerar meus pensamentos. Um libertino vulgar angariando mérito por patentear a falência da lei. Ele não estava só. Havia para quem direcionar o seu olhar oco. Havia para quem responder todo esse descontrole político que enfrentamos. Estamos embarcados no Metrô Linha 743 sem que tenhamos nos dado conta. Sem que saibamos em que parada descer.

E assim, em Pessoa, sigo questionando: “As injustiças da Natureza, vá: não as podemos evitar. Agora as da sociedade e das suas convenções – essas, por que não evitá-las?









NOTA DO EDITOR

A psicanalista e poetisa Alana Girão de Alencar, das mais novas e mais jovens aquisições da ACLJ, estreia no Blog com um texto analítico do dramático momento nacional.

Para tanto, a autora faz uma interessante fusão da ciência que domina com a poética que exercita, lançando mão de citações contemporâneas de cunho filosófico, que vão de Cazuza a Fernando Pessoa, passando por Caetano Veloso e Raul Seixas. Que seja bem-vinda e que seja constante.

Como o artigo veio inominado, atribuímos-lhe como título uma palavra do texto que bem sintetiza o tema manejado.

Não obstante traçados de forma escorreita, e dotados de estética estilística, a Editoria se permite realizar o copidesque necessário aos textos selecionados, de modo a que se compadeçam da forma padrão de seu Manual de Redação Profissional.




COMENTÁRIOS

A frase de Fernando Pessoa com que Alana arremata o seu artigo, excerto do livro “O Banqueiro Anarquista”, de 1922, encerra todo o drama da desigualdade social, bem como a inquietação ideológica que dele deflui e que vem angustiando e dividindo a humanidade.

A Natureza é injusta, admite o poeta, na conclusão agnóstica que soaria aos místicos como dizer que Deus é iníquo. Ilustra com perfeição a assertiva filosófica examinada o comentário revoltado que ouvi de uma jovem graciosa certa vez, ante a imagem blasé de outra, muito mais bela: “Eu acho isso tão injusto!”. 

Pessoa indaga  e Alana reverbera a indagação  sobre como poderia a comunidade universal evitar que um nasça belo e o outro feio, seja um são e o outro débil, um astuto e o outro néscio, e, pior ainda, que este último, por vezes, evolua socialmente e o outro não, embora a  lógica indicando  o oposto – tudo à matroca do binômio sorte/mérito.   

Ora, a concepção da existência de Deus se funda exatamente no entendimento de que seja Ele o equalizador moral das condições materiais díspares que a Natureza impõe a todos, que são de fato inescapáveis.

Os devotos esperam ser possível contornar espiritualmente as diferenças naturais por meio da fé, do amor universal e da Justiça Divina – quem sabe no sentido de que a moça menos dotada de encantos possa prosperar por méritos próprios mais que a outra, na sua vida afetiva e social.

Incréus por princípio, portanto infensos a essa solução fideísta e hipotética – mas, aferrados ao desiderato de alcançar a equidade material humanitária – os socialistas erigem métodos políticos que pretensamente possam promover a igualdade social indistinta e distribuir felicidade.

Pergunta-se: Existem essas fórmulas mágicas com o condão de contornar as iniquidades naturais, ou os desígnios divinos, para além do determinismo da sorte de cada qual, e de sua inata capacidade de se superar e evoluir pessoalmente, se destacando ainda mais? Somo-me a Pessoa e a Alana nessa dúvida profunda.

Reginaldo Vasconcelos


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Alana, com fina sensibilidade e uma mente que não se queda aos “pre” conceitos, aos rompantes de uma sociedade, que em meio as alienações, insensatez, inverdades e fraudes leva seu povo a se sentir perdido, exara, declara de forma poética e filosófica sua inquietude. Amei! Simplesmente, perfeito!


Cláudia Nadir


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Texto maravilhoso! Que apanhado de música, crítica, grandes nomes e link de atualidade...


Suelen Girão


segunda-feira, 16 de abril de 2018

NOTA ANIVERSÁRIA - Vinte Anos de A Escrita Acadêmica (VM)


Vinte anos de
A Escrita Acadêmica
 acertos e desacertos*
Vianney Mesquita**




No fundo da prática científica existe um discurso que diz nem tudo ser verdadeiro; mas, em todo lugar e a todo momento, há uma verdade a ser expressa [...], pois, de qualquer maneira, ela tem curso, aqui e em todo lugar. (MICHEL FOUCAULT – polígrafo. Poitiers, 15.10.1926; Paris, 25.06.1984 – 57 anos).



No começo do ano de 1998, foi lançado ao mercado editorial cearense o livro A Escrita Acadêmica – acertos e desacertos, composto a quatro mãos, pelo Prof. Dr. J. Anchieta E. Barreto e eu. Felizmente, ele vicejou em terreno fértil, pois nossos consulentes do meio universitário, leitores do comentado volume, parece que se libertaram da maioria dos vícios que grassam na academia nacional.

É a deleitável recompensa de um esforço cujo resultado era uma aventura desvairada – conforme nomeamos a empreitada antes de lançá-la à sorte. Tal fato, sem dúvida, representa o interesse de um capital investido na nossa iniciativa empresarial, há muito acalentada e então realizada, de modo que, ainda hoje, experimentamos a colheita dos seus dividendos.

Há que se imprimir, entretanto, continuidade no empenho, em sala de aula e na orientação de escritos universitários, a fim de a norma culta, com a qual se manifesta o pensamento no concerto das instituições de ensino e pesquisa, não sobrar tão desgastada com o emprego de clichês, manias e impropriedade de várias naturezas, as quais deslustram os estilos e pouco ou quase nada somam ao acervo do conhecimento, quando não aditam informações falazes.

A ininterrupção desse zelo, por parte também dos leitores do mencionado trabalho – especialmente professores – é necessária para que, por exemplo, não mais se registem em comunicações acadêmicas pérolas como “[...] um crucifixo da marca INRI” ou, no caso do “adevogado” que pediu o Corpus Christi do preso em razão do abuso de autoridade; para que membros da academia não escrevam mais que o conceito se bifurcou em dois nem que [...] o Brasil é um país com dimensões continentais [...] e é como um barril de pólvora prestes a explodir a qualquer momento.

Veio esse registro a propósito das respostas do público leitor às edições dos livros que tive a felicidade de editar até hoje, todos eles muito bem atestados pelos leitores e a crítica especializada. Não provei, até agora, dos nomeados arquitetos a posteriori, conforme Sérgio Milliet da Costa e Silva chama os críticos. Todas as apreciações respeitantes aos meus escritos – em livros, artigos de revistas universitárias e textos outros – trazem a marca da urbanidade e da decência, sem açoites violentos nem servilismos compadrescos a jeito de retribuição qualquer.

Para que assim ocorra, entretanto, se impõe a responsabilidade de quem escreve, para não conduzir o leitor ao engano, pois este, em tese, observa a chamada “fé do carvoeiro” em tudo o que se publica por via dos media, os quais, para a enorme e amorfa massa audiente, só se referem à verdade, como se os meios para difusão coletiva  expressassem apenas a verdade. Livro, jornal, rádio, televisão e meios eletrônicos não podem mentir! Grande balela...!

A mensuração do escritor é procedida pelo seu público e aquele deve ponderar as respostas das suas audiências com vistas a tomá-las ou não em conta quando da edição de outros trabalhos. Assim procedo, de sorte que me animo sempre a publicar o que produzo em virtude do meu ofício.

Esta razão me obriga a sempre levar ao lume mais conceitos, esposados na levedura impressa da palavra, fazendo “inflar” o valor dos textos sobre os quais me debruço em análises, fornecendo-lhes o necessário e justo condimento para que os autores se animem a cada vez mais produzir.

Por tal pretexto, vez por outra, jogo FERMENTO NA MASSA DO TEXTO, que serve, também, para homenagear a Padaria Espiritual, maior movimento literário e cultural do Ceará em todos os tempos.


*Este texto foi escrito, originalmente, como prefácio do livro Fermento na Massa do Texto (Apreciações), ora modificado (MESQUITA, Vianney. Sobral: Edições UVA, 2001).




CRÔNICA - Nascido e Renascido (JPG)


Nascido e renascido
João Pedro Gurgel*



Um dia desses olhei seriamente para o porta luvas do carro e pensei: por que tanto CD do John Mayer? Como não sabia a resposta, pensei que era hora de tentar dizer.

John Mayer nasceu no estado do Connecticut, no sul dos EUA. Começou a tocar guitarra depois de ver o solo de Johnny B. Goode em “De Volta Para o Futuro”. Um garoto que perdia horas dentro do quarto, sonhando em tocar para alguém mais do que o próprio gravador.

John saiu de casa perto dos 20 anos, para estudar em Berkley, tida como a melhor escola de música do mundo. Mas saiu de lá cedo. Percebeu que a música, de verdade, não estava nas extensas partituras ou outras teorias. A música era do mundo. Da rua. Da noite.

Sem dinheiro algum, John passou a tocar nos bares e casas noturnas em troca de um prato de comida, ou mesmo de um lugar para dormir. Uma rotina sofrível. Penosa. Mas que não estancava sua poesia, nem sua voz. 

Passar fome não era rotina muito charmosa. Mas, mesmo assim, Mayer não deixava de sonhar com sua amada, que lhe inspirou uma canção simples e apaixonada no meio daquele tormento. “Your Body Is a Wonderland”, então, foi a canção que lhe garantiu o prêmio MTV de Melhor Voz Masculina, e lhe colocou na rota do sucesso.

Nem tudo são flores. Após emplacar vários sucessos, JM foi maldosamente tachado de racista, pela mídia, por uma declaração distorcida. Somada a uma crítica cruel de Taylor Swift, a sua ex. Somado também um câncer na garganta, Mayer caiu na vala nefasta da depressão. 

“Born And Raised”, seu quinto álbum, é um verdadeiro tratado de superação e força. Traz o milagre da superação de um homem que se perdoa, e perdoa a todos com sua própria música. Mayer superou o câncer, o preconceito e a inveja. 

Dois álbuns depois, e ainda em atividade, John Mayer é considerado um dos maiores guitarristas modernos. Mas, sobretudo, um homem com coração.  Que nunca deixou de ser simples, apesar de ser complexo. Que nunca deixou o seu coração.



quinta-feira, 12 de abril de 2018

ARTIGO - O Perigo Esquecido (RMR)


O PERIGO ESQUECIDO
Rui Martinho Rodrigues*



Estamos cansados das nossas pendengas político-jurídicas. Mas fechamos os olhos para perigos vindos de fora. Há uma crise na Síria, tão séria quanto a “crise dos foguetes” dos mísseis soviéticos em Cuba, em 1962. O contexto da crise cubana era um mundo bipolar. Dois líderes se entendem mais facilmente do que muitos. A crise da Síria envolve Irã, Arábia Saudita, Turquia, Rússia, EUA, potências europeias e rivalidades étnicas e religiosas regionais. É mais difícil apaziguar paixão religiosa do que interesses de Estados. As duas superpotências perderam muito da influência que tinham sobre as potências regionais.
 
A crise de 1962 se deu quando os líderes eram pessoas equilibradas, de conduta prudente, que evitavam declarações incendiárias. Kennedy (1917 – 1963), veterano de guerra, sabia a tragédia que é uma conflagração e estava lendo o livro de Barbara Tuchman (1912 – 1989), que seria publicado no Brasil com o título “Canhões de agosto”, no qual a autora afirma que os líderes, em 1914, não queriam a guerra, mas tornaram-se prisioneiros da retórica belicista e caíram no abismo. Kennedy citou esta obra várias vezes nas reuniões do gabinete de crise.

Trump adota um discurso agressivo semelhante ao do Kaiser Guilherme II (1859 – 1941). Premido por investigações perigosas para o seu mandato, o presidente americano pode se sentir tentado a desviar a atenção para uma crise externa. A Rússia, vivendo uma longa recessão, encontra-se em situação semelhante.

Cuba ficava na área de influência americana, reconhecida pelos soviéticos em Ialta e Potsdam. Não há acordo semelhante na Síria.

Os acordos de proscrição das armas químicas estipularam duras sanções contra os seus violadores. Armas químicas têm sido usadas na guerra da Síria. A primeira vez Obama ladrou, mas não mordeu. Novo uso das citadas armas e Trump deu uma mordidinha de leve. Seguiram-se novos episódios de uso de armas químicas. Os chefes dos governos dos EUA, França e Reino Unido, desta vez, ameaçam usar a força. Putin promete interceptar os mísseis lançados contra a Síria e atacar a origem dos lançamentos, ameaçando com guerra. Trump prometeu atacar, dizendo à Rússia que se prepare.

A imprensa não deu a devida atenção e a ONU não tem protagonismo como em 1962. Não há mediador. Novas tecnologias militares podem criar a esperança de vitória para um lado. A crise de 1962 não terminou em guerra principalmente porque se acreditava que não haveria vencedor. Agora um general russo diz que pode ganhar a guerra sem disparar um tiro, valendo-se da ciberguerra e mais alguma coisa. As novidades bélicas podem estimular a ideia de fazer a guerra enquanto a vantagem tecnológica não é alcançada pelo adversário.

Os líderes de ambos os lados estão prisioneiros da retórica belicista, como em 1914. Ao tempo da I GM as democracias estavam bem armadas. Hoje as potências europeias democráticas, embora muito mais ricas do que a Rússia, estão desarmadas, dependendo unicamente do arsenal nuclear para a defesa. Até os EUA, campeões de gastos com defesa, aplicaram suas ricas verbas preparando e sustentando guerras assimétricas, deixaram de modernizar a força nuclear.

A atual crise é a mais grave desde o fim da II GM.


quarta-feira, 11 de abril de 2018

COLUNA VICENTE ALENCAR - Edição nº 1257 - 11.04.18



COLUNA DO VICENTE ALENCAR
EDIÇÃO Nº 1257
Quarta-Feira, 11 de Abril de 2018
Fortaleza – Ceará– Brasil
 Colaboração: Fernando de Alencar, Assis Mendonça Neto, Lúcio Rogério, João Vieira, Jovino Nunes de Alencar, Ângelo Osmiro Barreto e Silvio dos Santos Filho.


JOSÉ AUGUSTO BEZERRA
Presidente da Associação Brasileira de Bibliófilos recebe amanhã em Fortaleza o escritor alemão Arno Weling, que sexta-feira estará no Instituto do Ceará – Histórico, Geográfico e Antropológico (presidido por Lúcio Alcântara). 

Ele participará do lançamento da Revista Scriptorium, editada pela ABB, dentro das atividades que começarão às 15 horas, contando ainda com o apoio da Academia Cearense de Letras  (presidida por Ubiratan Aguiar).

Os intelectuais alencarinos, principalmente aqueles ligados a Associação de Bibliófilos, Instituto do Ceará e Academia Cearense de Letras são convidados a se fazerem presentes. 

Lembramos existir vizinho ao prédio do Instituto um Parque de estacionamento de veículos.


A VIAGEM IMAGINÁRIA DE ALADIM
É o titulo do livro da escritora cearense Maria do Carmo Aragão a ser lançado dia 16 de Abril, às 15 horas no Café literário, do SESC (Rua Clarindo de Queiroz, 1740).

Seus colegas da Universidade Gama Filho, UECE e Rotary Clube de Fortaleza Centenário se farão presentes em grande número ao lançamento.


CARLOS AUGUSTO VIANA
Escritor ganhador do Prêmio Osmundo Pontes, do ano passado, com “A Literatura Cearense através de Ensaios” ainda não definiu a data do lançamento do seu livro, que provavelmente ocorrerás em Maio.


ANA PAULA MEDEIROS
Professora da UFC e destacada integrante da Academia Cearense da Língua Portuguesa, convidando para o lançamento do seu livro “Costurando Histórias: Conceitos, Cartas e Contos” em parceria com suas colegas Cristina façanha soares e Tâmara Maria Bezerra Coelho.

Será nos jardins da Reitoria da UFC, ao lado do Auditório Castelo Branco, a partir das 19:30h do próximo dia 17, uma terça-feira.

A apresentação da obra será feita pelo Professor Batista de Lima, da UNIFOR e Membro Titular da Academia Cearense de Letras.


JOSÉ MARIA CHAVES,
Vera Morais, Sérgio Macedo e Révia Herculano estão na disputa por uma Cadeira na Academia Cearense de Letras, justamente aquela que pertenceu ao Professor Carlos D'Alge.


MARCIO CATUNDA
O escritor cearense há muito radicado no exterior, vindo porém todos os anos a Fortalezas, anunciando o lançamento de mais um livro em Fortaleza: “Todos os dias são difíceis em Barbúria”.


ELINALVA ALVES
Recentemente foi eleita Presidente da Associação de Jornalistas e escritoras do Brasil-AJEB-Ce é candidata a uma das vagas da Academia Fortalezense de Letras.


CONCURSO DE TROVAS BATISTA SOARES
Promoção da União Brasileira de Trovadores-Secção de Fortaleza, com inscrições abertas até 31 de julho próximo.


OS TEMAS 
ESTUDO (Nacional e Internacional), EDUCAÇÃO (Estadual), GRATIDÃO (Municipal), este exclusivo para trovadores e estudantes (Juventrova).

Informações; uvt.ceará@gmail.com

HOJE, QUARTA-FEIRA
Das 22 às 23 horas, o Programa Vicente Alencar – Educação, Cultura e Esporte. Rádio Assunção Cearense, AM 620.

Também no seu celular pelo aplicativo, no seu computador. Onde você estiver não há distância que nos separe.

Comunique-se conosco: 
vicentealencar25@yahoo.com.br



segunda-feira, 9 de abril de 2018

CONVITE - Todos os Dias São Difíceis na Barbúria (DS)


NOVO LIVRO DE
MÁRCIO CATUNDA


O RDS Editora promoverá o lançará do novo livro do confrade Márcio Catunda, e vem de convidar a todos para a noite de autógrafos. Abaixo, todos os detalhes do convite.





CONTO - Ritinha e Ricardinho (TL)


RITINHA E RICARDINHO
Totonho Laprovitera*



Ritinha era uma moça meio desabonitada para os atuais padrões de beleza. Contudo, possuía uma alma boa e nutria um sonho em sua deserta vida: o de namorar. Namorar pra valer, Naquela paixão de se entregar de corpo e alma para quem desejasse amá-la de verdade!

Em uma tarde de mormaço, Ritinha avistou Ricardinho, jogador de futebol. De esquálida compleição física, suas cambotas cambitas indicavam a sua vocação para a prática do esporte bretão.

Quando Ritinha espiou Ricardinho caxingando – por contusão, presumia – com um par de lustradas chuteiras debaixo do braço e um boné com a aba virada para trás... Gamou na hora! “Era um craque da bola”, repetia-se em pensamento a então candidata à maria-chuteira.

Desde então, Ritinha se agarrou a fantasiar como sendo a esposa do príncipe dos gramados. Até já se via residindo no estrangeiro, com os cabelos estirados e tingidos de loiro, com uma reca de filhos ao redor do casal, todos falando em inglês. E quando viessem de férias, como seria a chegada em Mucunã? Ora, certamente, desfilariam na caçamba de uma camioneta cabine-dupla pelos logradouros do distrito, sob os gritos de “urrus” e palmas e assobios do povo.

Ricardinho jogava de ala ou de meia, dependendo do esquema tático do “professor”, como ele costumava chamar o treinador do seu time, nas entrevistas em que fazia tipo, puxando um forte sotaque carioca e o dedo indicador zanzando pela orelha de abano. Diziam que ele era apenas um esforçado jogador, mas que sabia se valorizar. Vivia contando sobre mirabolantes propostas que recebia, mas que não podia divulgar, dado à cláusula de sigilo estabelecida em documento pré-contratual.

Ritinha, já arreada os quatro pneus e o sobressalente por Ricardinho, resolveu abordá-lo no bem-frequentado bar de “seu” Doca. Botou pra quebrar: toda nos trinques, vestiu-se de Marisa e perfumou-se de Avon! Carregou no aceso encarnado do batom e abarrotou de créditos o seu smartfone. Chegou de moto-táxi, sentou-se à mesa reservada e, mostrando uma reluzente e recheada carteira de cédulas, pediu uma dose de Campari com limão e uma porção de torresmo light para tira-gosto.


Entre a zona do agrião e a marca do pênalti, Ricardinho já havia entornado sete geladas e umas cinco canas, mordendo um único e enfarofado espetinho de gato. Mais liso do que muçum ensebado, pelo atraso de salários do glorioso Clube de Regatas Taquara, imediatamente grelou os olhos na endinheirada beldade. Em ato de puro interesse, dirigiu-se à Ritinha. 

– Boa noite, broto!

– Boa noite, moço.

– Estou vendo que está desacompanhada... Aguarda alguém?

– Não, não aguardo. Estou de passagem, aí, resolvi me distrair um pouco, sei lá...

– É como eu digo no Rio de Janeiro, broto, nada como refrescar a mente, num dia de bobeira...

– Pelo sotaque, já vi que você não é daqui, acertei?

– Na mosca! Nasci em Flores, Russas, mas fui criado em Ramos, Rio de Janeiro...

– Ah, então você é carioca...

– Da gema, broto. Da gema...

– E o que você faz da vida?

– Não faço, compro feito...

– Não brinca, diz...

– Bem, eu bato numa redonda pra descolar um troco...

– Como?

– Eu sou atleta profissional de futebol, broto. (Risos)

– Entendi...

– Posso me sentar?

– À vontade.

– Maneiro, broto.

– Imagina...

– Bem, eu me chamo Ricardo Augusto, mas atendo por Ricardinho. Qual a graça do broto?

– Rita de Cássia, mas pode me chamar de Ritinha...

E assim começou o primeiro capítulo da novela Ritinha e Ricardinho.

Daí por diante, em Mucunã, o falatório era geral em torno do grude do casal. Não demorou muito, Ritinha se entregou à Ricardinho e, diante de tanto engodo, quase que ela embucha.

Mas, como dizem que “tudo que é bom dura pouco”, o romance perdurou o suficiente para que o onzenário Ricardinho tomasse conhecimento de que não existia a menor chance de aplicar o golpe do baú em Ritinha, que não tinha onde cair morta. Na realidade, o “dinheirão” que a moça aparentava possuir era fruto de um seguro desemprego, somado à merreca de uma indenização trabalhista, recebida do quebrado armarinho Aguia de Ouro, em que ela havia ligeiramente trabalhado. Quer dizer, na realidade, Rita de Cássia, a Ritinha, era lisa e desempregada.

Por sua vez, Ritinha descobriu que Ricardinho era um jogador sem-futuro e tido como figura carimbada no ofício de ludibriar pequenos e bem intencionados clubes de futebol society. Quer dizer, Ritinha pegou abuso do Ricardo Augusto, o Ricardinho, que além de viver bichado, não tinha habilidade para dar, pelo menos, três consecutivos pezinhos.

Restou ao casal, o que sempre articula o professor Carlinhos Analfabético: “Don’t cry because it’s over, smile because it happened”, ou seja, “Não chore porque acabou, sorria porque aconteceu”.